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Em muitas cidades espanholas é comum encontrar nos bairros antigos uma quantidade infindável de “terrazas” (ou “terrados”, ou “azoteas”). Se imaginamos que o lote medieval é super estreito, num pequeno quarteirão é possível haver mais de 20 terraços. E esse é um mundo completamente diferente do mundo da rua.

Normalmente de uso comum, os terraços são usados das mais variadas formas. Estender roupa é a primeira delas. Muitos apartamentos não possuem área de serviço ou ventilação direta, então a solução é usar o ventinho e o sol lá de cima. Ontem fui estender roupa e minha vizinha estava tomando um solzinho. Outro dia tinha uma festinha no terraço do prédio da frente.

A vista da paisagem urbana desde um terraço de um bairro antigo é muito interessante. Vemos as mais diferentes estruturas de telhado, e toda a parafernália feia dos dias atuais: antenas, aparelhos de ar-condicionado, tubulações. Mas sempre  podemos entender um pouco do bairro onde estamos localizados, através da leitura dos marcos arquitetônicos. Eu consigo ver a catedral de Barcelona! É emocionante, além de ouvir as badaladas da torre sineira, ver como o sol vai batendo em suas torres.

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E para expandir o uso das azoteas, algumas iniciativas estão abrindo esses espaços para atividades culturais. Em Sevilla o fenômeno contagiou esse espaço semi-público. Para quem quiser saber mais, o programa España al ras del cielo, fez uma reportagem sobre as festinhas lá do alto, veja aqui.

Acredito que algumas atividades de lazer te tornam mais inteligente. Ir a um bom museu é uma delas, certamente. Uma boa exposição te mostra muito mais que obras, ela conta uma história, mostra diferentes pontos de vista, faz questionar, faz pensar em coisas que jamais pensarias antes de entrar pela porta.

As lojinhas de museu dão um show à parte. Eu consigo ficar um tempão entre os postais, os cadernos, as canetas, os marcadores de páginas, e os livros… Quando sou impactada por uma exposição, quero logo comprar livros sobre o artista, sobre as obras ou sobre o making of da coisa.

Mas aí o mundo virtual nos dá uma mãozinha. O Metropolitan Museum Of Art disponibiliza mais de mil publicações sobre suas exposições. Totalmente free. Coloquei “landscape architecture” em “keyword” e olhem as maravilhas que aparecem.

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O Guetty também disponibiliza muita coisa online. Aqui podes fazer uma busca avançada. O Guggenhein disponibiliza catálogos anteriores ao ano 2000 aqui.

Não está na hora de outros grandes museus disponibilizarem seus acervos? Se tens alguma dica de publicações de arte online, please, diz aí.

 

Estou passando uma temporada em Barcelona, e fiquei super feliz quando descobri que haveria um curso sobrecinema e cidade, grátis, na Faculdade de Arquitetura da UPC. Chama-se Arquitectura y Ciudad en el Cine, ministrado pelos professores Antonio Pizza e Celia Marín.

Estou estudando a relação entre esses dois mundos grandiosos (mais especificamente a paisagem platina e o cinema), e ainda estou um tanto perdida, porque são inúmeras as leituras, as abordagens, os caminhos.

Recém estamos na segunda aula (são 13 no total, incluindo conferências e projeções de filmes com debate), mas o conteúdo trabalhado até o momento já foi muito esclarecedor. Entre referências teóricas e filosóficas importantes como Benjamin, Guy Debord, Bachelard e Henri Lefebvre, estamos estudando alguns filmes emblemáticos na forma de tratar a cidade. O enfoque está sendo Berlim, Paris e Roma.

Um dos filmes que mais chamou minha atenção foi Cléo de 5 à 7 de Agnès Varda, filmado em 1962. Ao ver cenas do filme, imediatamente lembrei de Before Sunset (Richard Linklater, 2004), que é a continuação de Before Sunrise, filme que está entre os favoritos da maioria das “gurias” nascidas nos anos 80. Os filmes se relacionam principalmente porque ambos têm Paris como personagem, em ambos os protagonistas perambulam pelas ruas, e porque os dois são filmados de forma que o tempo real  coincida com o tempo do filme.

(Nota: apesar de gostar de cinema, minha cultura cinematográfica é bem pop. Não sou daquelas que sabe os filmes pelos diretores. Estou cansada de blockbusters, e adoro filmes europeus, mas não tenho nada contra uma comédia romântica bem hollywoodiana.)

Na hora não dei crédito para a relação que fiz, mas de curiosa fui pesquisar se alguém já tinha falado sobre isso. Eis que encontro este texto da própria Julie Delpy, protagonista e roteirista de Before Sunset, indicando que Cléo de 5 à 7 estava presente desde o início. Ela inclusive fala da forma como queria mostrar Paris. Amei o texto, e me encantei ainda mais por essa artista, roteirista, diretora, cantora…

Aqui, um trechinho de cada filme.

Você já viu Before Midnight, a continuação de Before Sunset? O que achou?

Algum filme já te chamou a atenção pela forma como inclui a cidade na trama?

Minha amiga Silvia e eu estamos à meio mundo de distância. Conversamos por Skype, e a cada conversa dividimos preocupações (em relação às teses, aos maridos, à família, à vida profissional), mas também dividimos muitas inspirações e muitas palavras de incentivo. A Silvia é autora do blog (que eu adoro) The Comfort Pursuit, que, como o seu subtítulo mesmo diz, é um espaço onde ela compartilha sua “journey” no doutorado e na pesquisa em paisagens urbanas, conforto climático e otras cositas más.

Em uma de nossas conversas, comentamos sobre ter ou não blogs e, em tendo um, quão profissional ou pessoal deveria ser. Aí a Silvia me disse uma coisa que não saiu da minha cabeça: tem que ser algo no meio. E este blog aqui não está em lugar nenhum. E é melhor não ter do que ter pela metade (ou como diria L.F. Veríssimo “quem quase vive já morreu). Então decidi chacoalhar a coisa.

So, seguindo mais uma dica valiosa da minha amiga, hoje inauguro uma nova fase do blog (se é que um blog com menos de 20 posts pode ter uma nova fase): vou falar mais de mim. Afinal, criei este blog mais para registrar ideias e compilar coisas do que para divulgá-lo.

E ‘bora escrever!

O site oficial de turismo de Arezzo organizou uma sessão totalmente voltada para as locações de “A vida é bela”, filme de Roberto Benigni, de 1998. As ruas, os edifícios e as praças que aparecem no filme são destacados num mapa da cidade, indicando um possível tour.  Incrível como, no site, o filme ganha maior destaque no que a principal obra de Piero della Francesca “Leggenda della Vera Croce”, do século XV, que também está em Arezzo, na Cappella Bacci.

Há um poder no filme que eu ainda não sei explicar. Mas claro está que esse poder reside na sua acessibilidade, na sua construção de um sentido. Esse sentido lança luz à determinados lugares que acabam por se destacar em relação à outros.

E esse mesmo poder atinge os sentimentos de pertencimento da população. O site traz um texto emocionado, em agradecimento ao diretor por haver escolhido a cidade para suas filmagens. Será que os diretores e produtores têm ideia do quanto uma escolha de locação pode impulsionar processos de valorização, visitação e proteção de uma região? Certamente sim. Tanto é que Woody Allen está circulando por aí fazendo filmes-homenagens à Londres, Barcelona, Paris… E não está investindo sozinho. Boatos dizem que o próximo será no Rio de Janeiro, com ajuda do governo municipal.

O artigo Film-Induced Heritage Site Conservation: The Case of Echoes of the Rainbow (disponível aqui), de Steve Pan e Chris Ryan, discute como o filme Echoes of the Rainbow (2010) de Alex Lawde impulsionou o processo de proteção e conservação da  Wing Lee Street de Hong Kong, depois de ganhar reconhecimento no Berlim Film Festival.

O poder de um (bom) filme não é pequeno não.

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